Os cães de gado têm sido utilizados pelos pastores durante centenas de anos e fazem parte do sistema tradicional de pastoreio utilizado em Portugal e noutros países do Mediterrâneo e da Ásia. Como método de proteção, o cão de gado destaca‑se pela sua ancestralidade e capacidade de adaptação às diferentes situações de pastoreio e de maneio tradicional do gado, sendo um método de utilização generalizada.
Por toda a Europa mediterrânica, onde a produção pecuária adquiriu uma grande importância económica, podiam encontrar‑se cães de gado acompanhando os rebanhos durante o percurso diário de pastoreio ou durante as migrações transumantes de verão, em busca de melhores pastos. Estas migrações sazonais, que podiam atingir centenas de quilómetros e durar vários meses, implicavam a movimentação de milhares de animais ao longo de rotas estabelecidas que cruzavam os países de Norte a Sul, chegando a atravessar fronteiras.
Os cães de gado possuem uma morfologia e comportamento característicos que os tornam muito eficientes na proteção dos animais domésticos dos ataques dos predadores. Estas características resultaram de uma seleção baseada no comportamento, efetuada pelo homem ao longo de milhares de anos.
Origem
Os cães de gado são provavelmente o tipo de cães mais numerosos e deverão estar entre os primeiros cães de trabalho selecionados pelo homem (Coppinger & Coppinger, 2001). A grande maioria dos vestígios arqueológicos de cães tem sido encontrada no Médio Oriente, onde ocorreu a domesticação de todas as principais espécies de gado, e estão frequentemente associados a comunidades humanas agrícolas (Clutton‑Brock, 1999). Estes cães terão posteriormente acompanhado as migrações humanas, espalhando‑se por toda a Europa (Coppinger & Coppinger, 2001).
Função
Os cães de gado trabalham independentemente do pastor, acompanhando o gado nas suas deslocações e mantendo‑se permanentemente na sua proximidade, mas sem perturbar a sua atividade.
Ao contrário do cão de gado, o cão de condução ou cão de virar ou cão pastor, como também é conhecido, obedece às ordens do pastor, que ajuda a reagrupar e conduzir o gado de um local para outro, perseguindo ou ladrando aos animais. Os cães de condução trabalham de acordo com as indicações do pastor não sendo, geralmente, deixados sozinhos com o gado. São geralmente cães de pequeno a médio porte e, portanto, muito ágeis. Os dois tipos de cães têm funções muito diferentes e podem ser utilizados em conjunto no mesmo rebanho.
Em virtude do desinteresse pela pastorícia, durante as últimas décadas assistiu‑se à diminuição da utilização dos cães de gado, o que levou à quase extinção de muitas das raças. Mais recentemente, verificou‑se um aumento do interesse pelas raças caninas nacionais que se traduziu numa maior procura destes cães para companhia.
No entanto, esta situação pode trazer alguns problemas, pois a seleção exercida sobre animais destinados à proteção de rebanhos é diferente da imposta a animais destinados a companhia. Estes são selecionados com base em padrões morfológicos e comportamentais geralmente diferentes dos requeridos para animais de trabalho, havendo o risco de se perderem padrões comportamentais importantes que estiveram na origem das raças de cães de gado (Willis, 1995).
Comportamento
A eficiência de um cão de gado está dependente do seu comportamento em adulto, o qual depende da emergência de determinados padrões comportamentais. Estes padrões comportamentais estão dependentes do estabelecimento de relações sociais com os animais do rebanho, que ocorre durante o Período de Socialização.
Socialização
Embora o processo de socialização possa ocorrer ao longo da vida do cão, é durante o Período de Socialização que as relações sociais com outros indivíduos (mesmo pertencentes a outras espécies), se estabelecem com maior facilidade. Este período, que decorre sensivelmente entre os 2 e os 4 meses de idade, é o mais importante no desenvolvimento comportamental do cão, uma vez que as experiências às quais o cachorro é sujeito nesta altura terão efeitos duradouros no seu comportamento (Scott & Fuller, 1965; Coppinger & Coppinger, 2001).
Estas experiências irão definir as suas preferências sociais e o grupo social com que se vai identificar. É nesta fase que os cães de gado aprendem o comportamento de Atenção e começam a dirigir os padrões comportamentais típicos dos cães (e que normalmente exibiriam para outros cães), para os animais do rebanho (Coppinger & Schneider, 1995). Isto é conseguido ao condicionar o meio social em que os cachorros se desenvolvem, limitando o contacto apenas ao gado.
Componentes comportamentais
De acordo com o modelo proposto por Coppinger & Coppinger (1980) para os cães de gado, utilizado em vários estudos sobre o desenvolvimento e a avaliação comportamental destes cães, podem definir-se três componentes comportamentais: i) Atenção; ii) Confiança; e iii) Proteção.
- Atenção: está relacionada com a socialização do cão aos animais do rebanho, implicando o estabelecimento de laços sociais entre ambos. Um cão de gado atento é aquele que se mantém na proximidade do rebanho, acompanhando-o nas suas deslocações.
- Confiança: refere-se à ausência de comportamento predatório ou de jogo por parte do cão para com os animais do rebanho. Comportamentos que perturbem a actividade do rebanho ou que levem ao ferimento e/ou morte dos animais devem ser impedidos, sendo os comportamentos mais adequados os de submissão e investigação.
- Proteção: capacidade do cão reagir adequadamente a situações estranhas e de interromper um potencial ataque e deriva dos acima indicados. Pode ser manifestada através de diversos comportamentos, agressivos ou não, que levem o predador a afastar-se do rebanho.
Das três componentes comportamentais, a Atenção é a que melhor parece traduzir a eficiência de um cão na redução da predação. Este é um comportamento fundamental no sucesso do cão de gado, uma vez que o cão só será eficiente se estiver perto dos animais que deverá proteger (Lorenz & Coppinger, 1986).
Além disso, existe uma correlação direta entre a Atenção e a redução da predação (Lorenz & Coppinger, 1986). Vários autores referem mesmo que não é necessário que um cão seja agressivo para com os predadores para que seja eficaz na proteção do gado (e.x.: Coppinger et al., 1988; Green & Woodruff, 1993).
A Atenção é assim uma componente comportamental de grande utilidade, uma vez que é facilmente observável, não sendo necessário observar interações com o predador ou mesmo a ocorrência de ataques ao rebanho para poder efetuar uma avaliação dos cães.
Morfologia
Apesar do grande número de raças de cães de gado existentes, estas apresentam uma grande semelhança morfológica entre si. São geralmente cães de grande porte, apresentando cabeças maciças e arredondadas e orelhas placadas (caindo junto à cabeça). A pelagem parece ser o principal fator que permite a distinção das várias raças, podendo ser curta ou longa, e apresentando toda uma gama de cores, podendo variar do branco ao preto, resultado das preferências regionais dos pastores.
Bibliografia
A seguinte lista de bibliografia diz respeito às referências feitas nos textos e constitui uma seleção da principal bibliografia recomendada.
- Andelt, W. (1992). Effectiveness of livestock guarding dogs for reducing predation on domestic sheep. Wildlife Society Bulletin, 20: 55-62.
- Clutton-Brock, J. (1999). A natural history of domesticated mammals (2nd Ed.). Cambridge: Cambridge University Press / The Natural History Museum.
- Coppinger, R. & L. Coppinger (2001). Dogs: A new understanding of canine origin, behaviour and evolution. Chicago: University of Chicago Press.
- Coppinger, R., J. Lorenz, J. Glendinnig & P. Pinardi (1983). Attentiveness of guarding dogs for reducing predation on domestic sheep. Journal of Range Management, 36: 275-279.
- Coppinger, R., L. Coppinger, G. Langeloh & L. Gettler (1988). A decade of use of livestock guarding dogs. In Crabb, A.C. & R. E. Marsh (Eds.), Proceedings Vertebrate Pest Conference (pp. 209-214). Davis: University of California.
- Coppinger, R. & R. Schneider (1995). Evolution of working dogs. In J. Serpell (Ed.), The Domestic Dog: its evolution, behaviour and interactions with people (pp. 21-47). Cambridge: Cambridge University Press.
- Green, J.S. & R.A. Woodruff (1990). ADC guarding dog program update: a focus on managing dogs. In L.R Davis & R.E. Marsh (Eds.), Proceedings 14 th Vertebrate Pest Conference (pp. 233-236). Davis: University of California.
- Green, J.S. & R.A. Woodruff (1993). Livestock Guarding Dogs. Protecting sheep form predators. Agriculture Information Bulletin Nr 588. United States Department of Agriculture, Animal and Plant Health Inspection Service.
- Green, J.S., R.A. Woodruff & W.F. Andelt (1994). Do livestock guarding dogs loose their effectiveness over time? In W.S Halverson & A.C. Crabb (Eds.), Proceedings 16 th Vertebrate Pest Conference (pp. 41-44). Davis: University of California.
- Green, J.S., R.A. Woodruff & T.T. Teller (1984). Livestock-guarding dogs for predator control: costs, benefits and practicality. Wildlife Society Bulletin, 12: 44-50.
- Lorenz, J.R. & L. Coppinger (1986). Raising and training a livestock-guarding dog. Extension Circular 1238. Oregan State University Extension Service.
- Lorenz, J.R., R.P. Coppinger & M.R. Sutherland (1986). Causes and economic effects of mortality in livestock guarding dogs. Journal of Range Management, 39: 293-295.
- Ribeiro, S. & F. Petrucci-Fonseca (2005). The Use of Livestock Guarding Dogs in Portugal. Carnivore Damage Prevention News, 9 (December): 27-33.
- Scott, J.P. & J.L. Fuller (1965). Genetics and the social behavior of the dog. Chicago: University of Chicago Press.
- Willis, M. (1995). Genetic aspects of dog behaviour with particular reference to working ability. In J. Serpell (Ed.), The Domestic Dog: its evolution, behaviour and interactions with people (pp. 52-64). Cambridge: Cambridge University Press.


